
PortoVelho RO - Eleito na esteira da onda bolsonarista que varreu o país em 2018, o governador de Rondônia, Marcos Rocha, construiu sua vitória apoiado diretamente no capital político de Jair Bolsonaro. A imagem do então candidato estava profundamente associada ao discurso conservador, à retórica antipolítica tradicional e ao apoio explícito do ex-presidente, que foi decisivo para sua chegada ao Palácio Rio Madeira.
No entanto, ao longo do mandato, o que se viu foi um silêncio ensurdecedor.
Apesar de ter sido eleito graças à força do bolsonarismo, Marcos Rocha não se manifestou publicamente em defesa de Bolsonaro nos momentos decisivos, não fez campanha aberta, não subiu em palanques com entusiasmo e tampouco assumiu posição clara quando o ex-presidente enfrentou desgaste político e eleitoral. O apoio, quando existiu, foi discreto, quase invisível — um contraste gritante com a veemência do discurso que o levou ao poder.
A contradição ganhou novos contornos quando, em um programa de televisão, o governador declarou que “não entregaria o governo a um traidor”. A frase, carregada de simbolismo político, foi interpretada nos bastidores como um recado direto ao vice-governador Sérgio Gonçalves, com quem a relação política se deteriorou ao longo do mandato.
Mas a pergunta que ecoa entre eleitores e analistas é inevitável:
quem traiu quem?
Para parte da opinião pública, a maior traição não estaria no vice, mas no próprio governador. Afinal, Marcos Rocha foi eleito como representante de um projeto político — e não apenas como um nome isolado. Ao se afastar publicamente de Bolsonaro quando o cenário deixou de ser favorável, teria abandonado o discurso, a base e o eleitorado que o colocaram no cargo.
A fala sobre “traição”, nesse contexto, soa menos como um alerta moral e mais como um ato de projeção política: acusar no outro aquilo que se pratica. O governador que chegou ao poder surfando uma onda ideológica teria, ao longo do tempo, escolhido a conveniência do silêncio em vez da coerência do posicionamento.
O episódio expõe uma ferida antiga da política rondoniense: líderes que se elegem com um discurso firme, mas governam com pragmatismo calculado, ajustando alianças conforme o vento político muda de direção. Para o eleitor, resta a sensação de ter sido usado apenas como degrau eleitoral.
No fim, a palavra “traição” talvez não diga respeito a disputas internas de poder, mas a algo mais profundo: a ruptura entre o discurso da campanha e a prática do mandato. E, nesse jogo, quem paga o preço mais alto é sempre o mesmo — o eleitor.
Fonte: Portal 364