Enquanto o Estado enfrenta colapso financeiro e o cidadão sofre com energia cara, deputados estaduais e o governador escolhem perdoar bilhões de uma empresa privada, revoltando a população às vésperas das eleições.

Porto Velho (RO) – Enquanto o produtor rural amarga prejuízos, servidores vivem sob risco de atraso salarial e o Estado recorre a fundos estratégicos para pagar folha de pagamento, a Assembleia Legislativa de Rondônia aprovou um dos atos mais controversos dos últimos anos: o perdão de aproximadamente R$ 2 bilhões em dívidas de ICMS da Energisa, concessionária responsável por uma das tarifas de energia mais caras do Brasil.
A decisão escancarou uma contradição difícil de explicar à população: quando falta dinheiro para o povo, o governo diz que o Estado está quebrado; quando é para beneficiar uma grande empresa privada, a conta simplesmente é apagada.
Estado sem dinheiro, mas generoso com a concessionária
Nos bastidores, parlamentares e lideranças políticas admitem que Rondônia enfrenta um cenário de desequilíbrio fiscal. O próprio governo estadual chegou a retirar recursos de fundos como o Proleite e o Fundo do Café, criados para fomentar a produção rural, para conseguir pagar a folha de pagamento da Emater.
Ou seja, o dinheiro que deveria apoiar o produtor de leite e o cafeicultor foi usado para cobrir despesas básicas do Estado, um sinal clássico de que as contas não fecham.
Mesmo assim, a maioria dos deputados estaduais votou favoravelmente ao perdão bilionário à Energisa.
Produtor de leite no prejuízo e governo ausente
A crise no campo é real. Produtores de leite relatam prejuízos constantes, queda na rentabilidade e ausência total de políticas públicas efetivas. Segundo relatos, o setor tem cobrado apoio do governo, mas encontra apenas silêncio.
O contraste revolta: faltam recursos para quem produz alimentos, mas sobra boa vontade para aliviar a dívida de uma empresa bilionária.
O alerta ignorado no passado
O mais grave é que esse mesmo projeto já havia sido barrado em legislaturas anteriores. Quando presidia a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o ex-deputado estadual Adelino Follador impediu que propostas semelhantes avançassem.
Na época, Follador classificava a anistia como juridicamente questionável e politicamente injustificável, argumentando que o Estado não poderia abrir mão de uma receita bilionária em favor de uma concessionária que cobra tarifas elevadas e acumula milhares de reclamações dos consumidores.
Ele alertava: cada real perdoado significaria menos dinheiro para saúde, educação, segurança e infraestrutura.
O aviso foi ignorado.
Energia cara para o povo, perdão para a empresa
Rondônia está entre os estados onde a população paga uma das contas de energia mais caras do país. A Energisa, apesar do alto faturamento, foi beneficiada com um perdão que pode representar uma das maiores renúncias fiscais da história do estado.
Para o cidadão comum, a mensagem é clara:
👉 o rigor fiscal vale para o povo, não para os grandes grupos econômicos.
Deputados terão de explicar nas urnas
A aprovação do perdão ocorre em um momento politicamente sensível. Com eleições no horizonte, cresce a pressão para que os deputados estaduais expliquem ao eleitor por que escolheram salvar uma empresa privada enquanto o Estado dá sinais de colapso financeiro.
O sentimento nas ruas é de indignação. Para muitos rondonienses, a decisão simboliza um governo fraco, um Legislativo submisso e uma inversão completa de prioridades.
Quando falta dinheiro para saúde, educação e produção rural, mas sobra para perdoar dívidas bilionárias, a pergunta que fica é simples e direta:
quem, de fato, o Estado de Rondônia está governando?