Guerra comercial: governo Lula arma resposta e defende Pix contra críticas dos Estados Unidos

Brasil armazena pólvora para "reciprocidade" enquanto espera definição de novo tarifaço de Trump

Governo Lula aciona Lei de Reciprocidade, mas estratégia esbarra em riscos econômicos e na contagem regressiva para sanções de 25%; embate comercial se entrelaça com críticas à oposição e defesa do Pix

PORTO VELHO RO – A relação comercial entre Brasil e Estados Unidos atingiu um novo patamar de tensão. O governo Luiz Inácio Lula da Silva acionou neste mês a Lei da Reciprocidade Econômica como resposta às sobretaxas de 50% impostas por Donald Trump sobre o aço e outros produtos brasileiros . Contudo, a real escalada do conflito está por vir, com a iminência de um novo pacote de tarifas de 25% sobre uma gama ainda maior de produtos, conforme proposta do Escritório Comercial dos Estados Unidos (USTR) publicada no último dia 1º de junho .

Diante do prazo final de 15 de julho para que as medidas americanas entrem em vigor, o Palácio do Planalto adota uma estratégia de "paciência armada": enquanto a diplomacia busca canais de negociação, o governo prepara o terreno para uma retaliação que, por ora, está longe de ser uma simples cópia das tarifas americanas .

A Lei que não foi usada... ainda

Sancionada em abril, a Lei da Reciprocidade autoriza o Brasil a adotar contramedidas comerciais, financeiras ou até mesmo a suspender direitos de propriedade intelectual (como patentes de medicamentos) contra países que imponham barreiras unilaterais . Apesar da autorização para o Itamaraty iniciar as consultas ter sido dada, especialistas apontam que o governo maneja a lei mais como um instrumento de barganha diplomática do que uma ameaça iminente .

O receio é pragmático. Aplicar uma tarifa linear de 50% ou 25% sobre os produtos que chegam dos EUA – como medicamentos, gases e aeronaves – poderia gerar um efeito explosivo sobre a inflação brasileira e o custo de vida . Por isso, nos bastidores do Ministério da Fazenda, a aposta é na chamada "retaliação cruzada", mirando o setor de serviços, royalties de filmes e séries ou patentes farmacêuticas, áreas sensíveis para Washington, mas que causam menos danos colaterais imediatos ao consumidor brasileiro .

A nova ameaça: "Tariflávio" e a defesa do Pix

O cenário se complicou drasticamente com a recomendação do USTR de uma nova tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras. Em seu relatório, o governo Trump justifica a medida citando, entre outros pontos, o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix.

Segundo a investigação americana, o Banco Central do Brasil trataria de forma "injusta e discriminatória" outros meios de pagamento ao privilegiar o sistema gratuito nacional. A menção ao Pix, repetida mais de 20 vezes no documento, foi vista pelo governo Lula como uma "interferência inaceitável" e transformou o assunto em bandeira política .

O governo reagiu rapidamente, associando a pressão dos EUA a uma suposta articulação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). A narrativa, impulsionada nas redes sociais sob a hashtag "#Tariflávio", busca responsabilizar a oposição pelos prejuízos de uma eventual guerra comercial .

Em Catalão (GO), Lula foi incisivo ao afirmar que o Pix é "intocável" e classificou a postura dos opositores como "pedir arrego" aos EUA: *"Ele não sabe que ele (Trump) não vai prejudicar o Lula, ele vai prejudicar é o povo brasileiro"* . A estratégia tem um duplo objetivo: blindar um programa de sucesso popular e desgastar o bolsonarismo a quatro meses das eleições.

As frentes de batalha

Política: O Planalto acredita que Donald Trump está "mal informado" sobre a balança comercial (que é superavitária para os EUA) e que age movido por uma agenda ideológica ligada ao bolsonarismo .

Diplomática: Lula tenta articular uma resposta conjunta no âmbito do Brics e busca aproximação com a China e o México, embora analistas alertem que esses mercados não conseguem absorver a pauta de manufaturados brasileiros que hoje vão para os EUA .

Eleitoral: A crise serve como combustível para Lula capitalizar o discurso da soberania nacional, tentando reverter a fragilidade nas pesquisas ao assumir o papel de defensor da indústria nacional e do "orgulho brasileiro" contra as bravatas de Trump .

Enquanto Trump afirma que não falará com Lula "agora", os ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento correm contra o tempo para publicar o decreto que regulamenta a Lei da Reciprocidade. Até 15 de julho, o Brasil oficialmente ainda não terá sido taxado pelas novas alíquotas, mas o clima é de que a trégua, se existiu, acabou .

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