Filho de peixe, peixinho é. Mas, no caso de Phoebe Gates, filha de 23 anos do fundador da Microsoft, a entrada no mundo tech veio acompanhada de uma polêmica no Vale do Silício. A jovem fundou a Phia, uma assistente de compras com inteligência artificial que se integra a navegadores — como Chrome e Safari — para comparar preços e encontrar ofertas em dezenas de sites de varejo e revenda. Como um Skyscanner do mundo da moda.
A startup, no entanto, parou nas manchetes depois de ser flagrada inflando artificialmente seus números e reivindicando crédito por vendas online que nunca aconteceram, segundo investigação da Bloomberg.
O esquema do "clique fantasma"
O esquema envolvia uma prática proibida no mercado, conhecida como cookie stuffing:
Funcionava basicamente como um clique fantasma. Quando o usuário ia finalizar uma compra no celular, a extensão abria uma aba em segundo plano que logo sumia. Essa aba colocava o link da Phia como se ela tivesse te levado até a loja. Com isso, a startup "roubava" os créditos de outros sites e ganhava comissões de marcas como Walmart, Nike e Zara por vendas que aconteceriam de qualquer jeito.
O mecanismo foi identificado de forma independente pelo pesquisador Ben Edelman e pela ferramenta concorrente Capital One Shopping, que chegaram a alertar os varejistas sobre a prática . A Bloomberg testou a extensão em mais de 50 sites de varejo e confirmou o funcionamento do esquema . O código responsável pelo problema foi introduzido na plataforma em dezembro de 2025.
"O requisito mais fundamental no marketing de afiliados é que a comissão só é paga se um usuário clicar. As regras não permitem cliques falsos, simulados, imaginários ou hipotéticos. Apenas um clique real serve", afirmou Ben Edelman à Bloomberg.
O estrelato e os números bilionários
Apesar do escândalo, a Phia parece não ter sofrido abalos significativos. O aplicativo já foi baixado mais de 1,2 milhão de vezes e captou US 185 milhões.
A lista de investidores é de tirar o fôlego e inclui nomes como Kris Jenner, Hailey Bieber, Sara Blakely (fundadora da Spanx), Sheryl Sandberg (ex-COO do Meta), Khloé Kardashian, Sydney Sweeney, Paris Hilton, Priyanka Chopra, Jessica Alba, The Chainsmokers, além de fundos como Notable Capital, Kleiner Perkins e Khosla Ventures.
Defesa e consequências
Após ser notificada pelas investigações, a empresa reconheceu o problema técnico em seu código-fonte. "Nas últimas 24 horas, fomos informados de que, em um lançamento recente, nosso código estava causando atribuições incorretas para um subconjunto de usuários. Assim que fomos notificados, nossa equipe trabalhou durante a noite para identificar, mitigar e resolver o problema", afirmou um porta-voz da Phia.
A empresa afirmou que a falha já foi corrigida, e a Bloomberg confirmou que, em novos testes, o problema não se repetiu. No entanto, as consequências já começaram a aparecer. A Impact.com, uma importante plataforma de marketing de afiliados, suspendeu a conta da Phia por comportamento "inconsistente com as políticas da plataforma" . A rede Awin também informou estar analisando as acusações.
Não é a primeira polêmica
Esta não é a primeira vez que a Phia enfrenta controvérsias. Em 2025, pesquisadores de segurança descobriram que a extensão registrava o histórico de navegação dos usuários, incluindo páginas sensíveis como extratos bancários e e-mails privados, enviando essas informações para os servidores da empresa. Após a denúncia, a Phia alterou a política para registrar apenas URLs.
O caso da Phia lembra outras polêmicas semelhantes no setor. A Honey, ferramenta de cupons de desconto do PayPal, enfrenta uma ação coletiva na Califórnia por acusações semelhantes de cookie stuffing. Na década de 2010, duas empresas foram processadas criminalmente por usar técnicas parecidas para fraudar o eBay, lucrando cerca de US$ 35 milhões
