
PORTO VELHO RO – O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), oficializou nesta segunda-feira (30) sua entrada oficial na corrida sucessória de 2026. Em um discurso focado na "pacificação", Caiado tentou um movimento ousado: prometeu que seu primeiro ato no Palácio do Planalto será a concessão de uma anistia "ampla, geral e irrestrita" a Jair Bolsonaro e aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.
Entretanto, o que pretendia ser um "cartão de visitas" para a base conservadora acabou expondo as profundas fissuras de sua candidatura e a resistência de um eleitorado que ele desesperadamente tenta herdar.
A Direita "Raiz" e o Ceticismo Bolsonarista
A estratégia de Caiado de prometer anistia não parece ter surtido o efeito desejado no núcleo duro do bolsonarismo. Para a chamada "Direita Raiz", as falas do governador goiano soam como conveniência eleitoral tardia. O grupo mantém fidelidade a Flávio Bolsonaro (PL), visto como o herdeiro natural e legítimo do espólio político do pai.
Já a centro-direita e a ala liberal enfrentam uma fragmentação que empurra Caiado para a margem. Nomes como Romeu Zema, com sua vitrine de gestão em Minas Gerais, e Renan Santos, liderando a nova fase do MBL com o partido Missão, disputam o mesmo vácuo de "terceira via" ou "direita técnica". Para esses grupos, o discurso de Caiado é visto como um "lenga-lenga" político que não oferece o vigor ideológico nem a renovação necessária.
O "Cavalo de Troia" dentro do PSD
■ Se o cenário externo é hostil, o interno é um tabuleiro de xadrez perigoso. O PSD, partido presidido por Gilberto Kassab, é hoje um pilar de sustentação do governo Lula, ocupando três ministérios estratégicos.
■ O Risco da Infidelidade: Analistas apontam que Caiado corre o risco de sofrer uma "traição branca". Enquanto muitos filiados prometem fidelidade em palanques estaduais, a estrutura governista do PSD tende a caminhar com o atual presidente.
Além disso, o lançamento da pré-candidatura já gerou faíscas entre aliados:
■ Eduardo Leite (RS): Declarou-se abertamente contra a escolha, afirmando que o caminho de Caiado "tende a manter a polarização radicalizada".
■ Raquel Lyra (PE): A governadora pernambucana, focada na reeleição, tem estreitado laços com o governo federal, sinalizando que a pauta regional de Pernambuco pesa mais que a aventura presidencial do colega de partido.
1989: O Fantasma da "Tragédia Eleitoral"
O grande desafio de Caiado é evitar a repetição de sua trajetória em 1989, quando sua candidatura não conseguiu romper a bolha do agronegócio e do reduto goiano. Embora sua aprovação em Goiás seja recorde, a política nacional de 2026 continua sendo um jogo de extremos.
Sem o apoio de Bolsonaro, sem o carimbo da esquerda e com um partido que joga nos dois lados da rede, Caiado corre o risco de se tornar um candidato "solitário". Ele prega o fim da polarização, mas em um Brasil dividido entre o "Lulismo" e o "Bolsonarismo", o espaço para o meio-termo parece, cada vez mais, um terreno árido e sem votos.
O sucesso de Caiado dependerá exclusivamente de sua capacidade de subir nas pesquisas nos próximos meses. Caso contrário, sua pré-candidatura poderá ser sacrificada no altar das alianças pragmáticas de Kassab com o Planalto.